"Batalhão do pé descalço" [em Memória de Bruno Miguel] III [segundo Samuel Chiwale]
CRUZEI-ME COM A HISTÓRIA, José Samuel Chiwale, Sextante Editora, Lisboa, 2008
em Memória de Bruno Miguel
«TEXTO DE SAMUEL CHIWALE, O COMANDANTE RESPONSÁVEL PELO ASSALTO DA UNITA AO BART 6221/74 NA SUA BIOGRAFIA PUBLICADA EM 2008»
«José Samuel Chiwale, o comandante responsável pelo assalto da UNITA ao BART 6221/74, nas viagens (auto e comboio) entre Luso e Nova Lisboa, escreveu a sua biografia – CRUZEI-ME COM A HISTÓRIA –, que foi publicada pela editora portuguesa Sextante em 2008. Li o livro do Chiwale (que é agora um “senhor” deputado da UNITA no “parlamento” angolano) e como, no Capítulo 5, começando por evocar os combates no Luso da UNITA contra o MPLA [ou vice-versa], o homem relata de seguida os acontecimentos relacionados com esse assalto ao nosso comboio (sem considerar nunca que se tratou de um assalto...), é interessante compararmos o que ele escreveu, com o Relatório do Comandante do BART 6221/74, que já aqui publicámos. Isto porque, lidos os dois relatos, parece que estamos a ver “filmes” diferentes... Mas os homens do BART 6221/74, lembram-se perfeitamente deste episódio traumático da sua juventude “ao serviço da nação” e sabem que aquilo está tudo escrito numa prosa “embelezada” ao sabor da memória e a favor deles (UNITA), com o intuito de apresentar “músculo” e achincalhar os militares portugueses que lá estiveram. Shiwale também refere que os militares portugueses “foram desarmados e despidos” (ele escreve que isso [o despidos] foi lamentável), embora esses episódios, pelo que tenho apurado até agora, se refiram apenas a meia dúzia de casos isolados, que abordarei em texto específico neste blogue noutra altura, assim como a célebre "Operação Madeira" em que a UNITA colaborou com o Exército Português e com a PIDE contra o MPLA, pouco antes do 25 de Abril...
Vejamos então a parte que nos diz respeito do tal Capítulo (o 5º) do livro de Samuel Chiwale:
5
Em Julho de 1975, depois de provocações em todo o país, rebentou a guerra civil em Angola: os combates iniciaram-se de uma forma mais declarada em Luanda, entre o MPLA e a FNLA, continuaram em Agosto, espalhando-se por todo o país. Bastava haver efectivos dessas organizações para haver faísca. Mas também, se bem que de modo esporádico, não éramos poupados: o massacre de cerca de 328 recrutas da UNITA, em Cassamba, foi o exemplo mais revelador.
Recordo-me de ter participado a ocorrência ao Dr. Savimbi e de lhe ter sugerido que deveríamos retaliar; não era justo que centenas de pessoas fossem mortas como animais. Na sua comunicação, o Dr. Savimbi dizia:
– Convém não reagirem e procurem dialogar para evitar o pior; o diálogo é, neste momento, a arma que vocês devem utilizar na frente leste para evitarem que a situação se deteriore. Vamos continuar a bater-nos pela reunificação dos três movimentos.
Não tardou que as palavras do Dr. Savimbi fizessem eco na minha cabeça: «Depois de acabarem com a FNLA seremos nós.» Efectivamente, de nada valeram os seus discursos para não enveredarmos pela guerra. O mais caricato é que o MPLA, num tom pejorativo, passara a apelidá-lo de «Profeta da Paz». Mesmo assim, o Dr. Savimbi insistia, na vã tentativa de evitar que o país caísse no caos, até que se deu o inaceitável, que nos forçou a rever as nossas posições.
No dia 3 de Agosto de 1975, o Dr. Savimbi dirigia-se para o aeroporto de Silva Porto (Bié) com a intenção de viajar para a Zâmbia. Tinha na agenda um ponto para analisar com os presidentes dos países da linha da frente referente à criação de outros mecanismos para se inviabilizar o recurso à guerra e se realizarem as eleições conforme o previsto em Alvor. Nenhum de nós desconfiava que fora delineado um atentado contra ele nesse dia; assim que o avião «Muangai» procurou descolar do aeroporto do Bié, lançaram uns mísseis contra ele. Só não aconteceu o pior por milagre.
Realmente, o ataque ao avião era apenas o prelúdio do que veio a acontecer nos dias subsequentes e ainda mais: vimo-nos, do dia para a noite, no meio de um fogo cruzado. Assim, em Luanda éramos acossados pelo MPLA, juntamente com as forças cubanas; no norte (Uíje e Zaire) e mais a sul, pelas forças da FNLA. Estas tinham ali uma composição diversificada: contavam, para além de sul-africanos, com o ELP (Exército de Libertação de Portugal).
Reunimo-nos com urgência. Nesse encontro, onde a revolta se acasalara com a frustração, porque o pior já estava a acontecer, o Dr. Savimbi tomou a palavra e disse:
– Não queria que nos envolvêssemos nesta guerra, porque ela vai ser longa e dolorosa e o Povo deste país irá sofrer muito. Fizemos tudo por tudo para unir os três movimentos; fizemos tudo por tudo para se evitar uma guerra em que não nos queríamos meter, mas quando já nos tentam assassinar não temos outra alternativa senão autodefendermo-nos para salvaguardarmos as vidas e a causa.
Foi desta forma que a UNITA entrou numa guerra que, inicialmente, era entre o MPLA e a FNLA.
*
Encontrava-me nesse momento na frente Leste, acompanhando a situação. Da parte do MPLA estavam os comandantes Dangereux e Dack Doy. À tarde tínhamos briefings regulares.
Naquele remoto dia 15 de Agosto [de 1975] estava com eles na minha casa, procurando a estratégia a utilizar para, conforme se dizia, pacificarmos a área.
– Camarada Chiwale! – Dangereux procurava sossegar-me. – Vamos fazer o impossível para manter o Leste livre das escaramuças. Foi por isso que viemos cá, a sua casa, a fim de lhe garantirmos que o Leste é uma região de paz.
Estávamos na sala de estar, com Dangereux e Dack Doy sentados em frente de mim. Notei que o primeiro tinha consigo uma garrafa de champanhe.
– Vai um gole? Temos aqui copos? – convidou.
– Camarada Dangereux, podemos beber o champanhe, mas eu queria dizer-lhe que tenho informações fidedignas de que entraram hoje, às quatro horas da madrugada, 28 viaturas vindas de Henrique de Carvalho, abarrotadas de catangueses armados até aos dentes.
– Mas, camarada Chiwale – procurou novamente sossegar-me –, você não vê mesmo que isso que está a dizer não faz sentido? Como é que estaríamos aqui, na sua casa, se a nossa intenção fosse atacá-lo? Para isso convidá-lo-íamos para as nossas instalações ou para o quartel-general e dávamos lá o golpe de misericórdia. Peguem lá nos vossos copos para brindarmos à amizade existente entre o comando do MPLA e o da UNITA, da frente Leste.
Momentos depois, o ambiente tornara-se mais desanuviado e passámos para o whisky acompanhado de um churrasco. Às dezoito horas, despedimo-nos com a promessa de que o Leste seria um oásis naquele deserto de pólvora.
Não se tinha passado sequer uma hora quando um morteiro explodiu ao lado da minha residência. As minhas suspeitas confirmavam-se: eles tinham estado ali não só para me espiar mas também para descobrirem a minha estratégia de ataque ou de defesa, e não se haviam apercebido de nada, por me subestimarem como adversário: dias antes eu organizara, no bairro periférico do Sangondo, um cordão de segurança, baseado numa forte estrutura militar sob o comando do major Severino, coadjuvado por outros militares, já míticos, como o Cazumbuela, o Cacoma, o Jolomba, o Cufuna e outros. A minha segurança à volta do bairro Esteves (Ferrovia) também fora reforçada.
Foi desta forma tão inusitada que, no dia 15 de Agosto, começaram as confrontações no leste de Angola e – digo-o à boca cheia – graças ao meu sexto sentido pude escapar da armadilha de Dangereux e Dack Doy.
O fogo começou; respondíamos de modo incisivo e musculado: assim que um morteiro explodia dentro das nossas posições, dirigíamos para o local dez obuses. Pretendíamos neutralizar as forças do MPLA a partir do BTR, que era o quartel-general das tropas portuguesas, situado na margem direita do rio Luena.
O poder do fogo foi-se intensificando em ambos os lados atingindo proporções jamais vistas na minha vida de guerrilheiro: os combates prosseguiram durante a noite; às seis da manhã tínhamos conquistado a zona do aeroporto, o bairro Ferrovia, o Sakatundo, ou seja, toda a periferia da cidade do Luso. As tropas do MPLA haviam ficado apenas com a área do palácio e o quartel dos comandos, ainda por concluir.
Às onze e meia, quando íamos aplicar o golpe derradeiro para os escorraçar definitivamente da cidade, descobrimo-nos sem munições. O mesmo deve ter-se passado com eles, uma vez que das posições onde estávamos víamos as FAPLA a ser reabastecidas pela tropa colonial [portuguesa], que ainda ali estava. Então eu fiz o que, na altura, me pareceu mais lógico: assim que os soldados do MPLA viram supridas as suas necessidades em munições, bombas e granadas, mandei alguns dos meus homens com o mesmo propósito. Foi em vão.
Às quinze horas, forçado pelas circunstâncias, ordenei à tropa que batêssemos em retirada até à localidade de Chicala. Tratava-se de um recuo estratégico com os meus cinco mil homens dos quais, infelizmente, apenas três mil estavam armados, contrastando com as forças do MPLA, sobretudo dos catangueses.
*
Muito antes das confrontações soubemos que o exército português, juntamente com os colonos do Luso, se iriam retirar para Portugal, pela via do Huambo. Daí, planeámos assaltar o comboio na Chicala, a não ser, disse aos meus homens, que construíssem outro caminho-de-ferro; mas se o comboio passasse pela Chicala, Cachipoque, Cangumbe, Cangonga, Munhango, Cuemba, até à ponte do rio Cuanza, então eles teriam que se haver connosco. Seguramente, era uma forma de os fazer pagar pela parcialidade nos combates do Luso.
No dia 24 de Agosto, o comboio-mala deixou aquela localidade em direcção à Chicala, onde chegou às 18 horas. Trazia consigo a maior parte dos efectivos da tropa colonial à excepção dos comunistas que permaneciam ali em socorro das FAPLA. Também transportava munições, bombas de morteiro 40, 60 e 81 mm, rockets, bazucas, minas antipessoal e antitanque; era mesmo do que precisávamos para inverter a situação da guerra no Leste.
Assim que o comboio accionou os freios, viu-se completamente cercado. Avancei, resoluto, para o seu interior, abordando o oficial responsável, de quem já não me recordo o nome.
Depois de o saudar à boa maneira militar, disse-lhe:
– Senhor coronel, preciso de armamento.
– Que armamento? – respondeu exaltado. – O senhor não sabe que este armamento pertence ao exército português e ao exigi-lo está a violar os Acordos do Alvor?
Visivelmente nervoso, ripostei:
– Não me venha agora com os Acordos do Alvor. Eu necessito de material e ponto final, e falando de violações, não tenho nada a dizer senão lamentar a vossa atitude na cidade ao fornecerem armas às tropas do MPLA. Portanto, vamos pôr de lado os Acordos do Alvor e dê-me as armas, pois tenho que voltar para o Luso para retomar as posições que perdi.
O coronel, ao ver que as nossas posições se extremavam, chamou o padre Oliveira, nosso conhecido, pois fora ele quem, em 1974, viabilizara o primeiro encontro que tivemos com o Movimento das Forças Armadas, na base do qual se assinou o cessar-fogo. O padre saiu em sua defesa, defendendo os mesmos pontos de vista, aos quais retorqui:
– Sempre respeitei o senhor padre, por tudo o que fez para o entendimento da UNITA com o Movimento das Forças Armadas, mas agora gostaria imenso que compreendesse que há uma necessidade extrema em satisfazer as necessidades dos angolanos. O padre Oliveira está a partir para Portugal, para a sua pátria. Eu não tenho outra pátria senão esta pela qual estou a lutar e se não o fizer corro o risco, assim como os meus homens e o meu povo, de desaparecer. Gostaria que o senhor padre me entendesse não só como homem, mas também em nome de Deus. Não é Ele que diz que se deve saciar os carentes? Estou carente de armas. Peço-lhe que compreenda isso.
– Mas isso não pode ser, comandante! - exclamou. - Isto é um assalto.
– Gostaria – ignorando-o – que o padre Oliveira me entendesse também. É que o senhor nem sequer deveria ir a Portugal. O seu lugar é aqui, as suas ovelhas estão aqui e foi aqui que o senhor padre fez um trabalho excepcional para este povo. Vai deixá-lo assim sem mais nem menos? E mesmo que o faça acredito que um dia há-de voltar, mas isso só será possível com a UNITA no poder, pois esses que vocês apoiaram com armas e munições, se vierem a tomar o poder, a primeira coisa que farão é combater a igreja. Então, acho que estão de acordo em que eu posso retirar o material do comboio.
– Não chegámos a acordo nenhum – interveio o coronel –, aliás, o padre Oliveira disse-lhe o mesmo que eu. Será que não entende?
– Bem, se não vai a bem vai a mal. Vou chamar os meus homens e olhe que são cinco mil e vamos tomar o comboio de assalto. E para já, senhor coronel, dê-me a sua pistola, vamos – estendi-lhe as mãos.
O que se passou de seguida foi caótico: os soldados portugueses, com a intenção de nos amedrontarem, começaram a disparar para o ar, mas quando viram cerca de quatro mil homens a correrem em direcção ao comboio ficaram todos quietos.
Foi assim que nos apossámos do comboio: a quantidade de material era surpreendente, passámos toda a noite a descarregar e às cinco horas da madrugada ordenei que o comboio partisse. Tinha orientado os meus homens para que se fizesse o mesmo nas outras estações, ou seja, em Cachipoque e Cangumbe a fim de o esvaziar por completo.
As coisas no Cangumbe, como acontece frequentemente nestas situações, não correram lá muito bem: alguns dos nossos homens insurgiram-se contra a tropa e os colonos que iam no comboio; agrediram-nos chegando mesmo ao ponto de os despir, o que foi realmente lamentável.
De seguida, o comboio foi deixando o resto do material em Cangonga, Munhango, Cuemba e, ao atravessar o rio Cuanza, ficou completamente vazio. Foi com essas armas que conseguimos alterar o teatro de guerra na frente leste, centro e sul. Na verdade, não era pouco armamento: G3, morteiros, antiaéreas em grandes quantidades. Deparámo-nos com algum material desconhecido; felizmente, tínhamos soldados oriundos do exército colonial português, que nos instruíram sobre o seu manejo.
No dia seguinte, às nove horas da manhã, vimos um avião de reconhecimento a rasgar os céus. Saudámo-lo com uma salva de fogo das antiaéreas capturadas. Os seus ocupantes devem ter ficado surpreendidos, pois o avião deu meia-volta e desapareceu no firmamento.
Entretanto, as coisas tiveram outros desenvolvimentos: a minha acção foi objecto de uma reacção violenta por parte do coronel do Movimento das Forças Armadas no Huambo, que acabava de chegar de Moçambique. Abordou o secretário-geral, Miguel N'Zau Puna, nos seguintes termos:
– O vosso comandante Chiwale e os seus homens desarmaram a composição que vinha do Luso para cá e, veja só, como se não bastasse, tiveram o desplante de despirem os seus ocupantes. Não aceitamos humilhações desta natureza e por isso vim adverti-lo, ao senhor que é responsável pela cidade do Huambo, de que vamos retaliar e você vai arcar com as consequências.
– Se vocês querem retaliar – respondeu N'Zau Puna – então vão ao Luso onde está o homem que fez isso. Agora, se o querem fazer cá no Huambo, tenham muito cuidado que eu posso pôr a população desta cidade contra vocês, o que seria pior: não se esqueçam de que este povo ainda nutre muitos ressentimentos pelo passado e, como tal, a situação poderá tornar-se incontrolável. Sugiro, pois, que evitemos um banho de sangue.
O coronel, conforme soube mais tarde, achou por bem resignar-se. Informei, então, o Dr. Savimbi da ocorrência e do procedimento a seguir para a distribuição do material pelas outras unidades.
*
Pouco a pouco, o país entrava numa guerra sem precedentes, onde as várias forças e os seus aliados se digladiavam na tentativa de ocupar o maior território possível. Em Luanda, o MPLA reforçara-se com milhares de soldados cubanos e centenas de técnicos da União Soviética, Alemanha Democrática e outros países do Leste. No Sul, deparámo-nos com uma força cujos objectivos e programa político desconhecíamos: o ELP (Exército de Libertação de Portugal), ainda que estivesse ligado às forças de Daniel Chipenda (que se passara para a FNLA), não se sabia bem o que pretendia; os elementos que o compunham tinham pertencido ao exército colonial português e estavam refugiados no Sudoeste Africano (...).»
in Jorge Machado-Dias [https://aretirada1975osultimosdoleste.blogspot.com/2014/09/texto-de-samuel-chiwale-o-comandante.html], 10 de setembro de 2014. [c.2025.05.12 - #porMdQ]
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LIVRO: "Últimos no Leste de Angola, Na retirada do Exército Português em 1975" de Jorge Machado-Dias", Editor: Chiado Books, maio de 2017, em [https://www.wook.pt/livro/ultimos-no-leste-de-angola-jorge-machado-dias/19596597]
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